quarta-feira, 28 de abril de 2010

O homem é um animal político: mesmo quando não sabe disso!

A época das eleições se aproxima e já começam todas as campanhas pela conscientização dos jovens e da população de um modo geral. Fala-se, por todos os cantos e a todo o momento, da importância da política e do voto consciente. A frase mais repetida, que é levada a exaustão, sobretudo, no dia das eleições, é a de que é chegada a hora de exercer a cidadania. O que se entende por exercício da cidadania? Ir até um local escolhido, de preferência que seja próximo a casa do cidadão ou cidadã, e digitar, numa máquina, um punhado de números que gerarão a imagem de algum dos sicranos que concorrem à eleição, deve-se ver se a cara do dito cujo corresponde ao esperado, caso corresponda aparta-se sim, caso não corresponda, deve- se apertar corrige e tentar mais uma vez.

Não posso ser injusto com os meios de comunicação: eles também alertam para a importância de acompanhar o que o político fará para saber se é merecedor do voto ou se devemos depositar nossa confiança e expectativas em algum dos outros indivíduos que se dizem dela merecedores. Indo ao dia da eleição e votando, acompanhando o que fez o político, este último item não parece ser tão imprescindível, já se tem um cidadão que realizou o exercício mais nobre de todos, a senhorita cidadania. Ou seja, política e cidadania são coisas que se resolvem praticamente em um dia e que, passado esse dia, pode-se guardar até o próximo ano de eleição, época em que, novamente, seremos cidadãos e cidadãs.

Cidadania e política são apresentadas como coisas totalmente distantes do nosso dia a dia, que se resolvem numa determinada época de um determinado ano, algo mais ou menos como carnaval, época de libertar os instintos, ou como o natal, época de presentear, de ser bom e encontrar a família. A cidadania é como aquela roupa que só se veste em um dia muito preciso, com um pouco de orgulho e desconforto para ir a uma festa, no caso, aqui, trata-se da festa política promovida pelos políticos. Nesta festa a função do cidadão eleitor e da cidadã eleitora está muito bem definida: tal qual o pai que leva a noiva ao altar e a entrega ao noivo, o qual juntamente com ela se encaminha para as mãos de Deus, os eleitores entregam seu voto a um sujeito previamente escolhido por meio do horário eleitoral e, quando muito, por meio de um debate, feito isto, voto e político estão entregues a Deus e, com o perdão do trocadilho, diz-se adeus.

Esquece-se, entretanto, que política não se reduz a escolha de determinado fulano como representante legal, mesmo não querendo e não sabendo, nos demais dias do ano e em todos os anos fazemos e vivemos a política. Vivemos a política não só como fruto da ação dos indivíduos por nós eleitos, mas nas nossas escolhas diárias. Quando estamos nos supermercado podemos escolher comprar produtos que apóiam o meio ambiente ou escolher aqueles que não apóiam. Quando comemos, podemos escolher uma alimentação que envolveu o sofrimento de outros seres, sejam eles humanos ou não-humanos e uma alimentação livre de sofrimento. Quando presenciamos cenas de abuso, podemos escolher entre o silêncio conivente e a intervenção modificadora. Quando vemos os abusos estéticos e éticos da mídia, podemos escolher entre a perpétua submissão e a revolta que diz não e exige mudanças. Quando ouvimos falar da apatia das pessoas diante da política por ausência de causas por que lutar, podemos nos contentar com o mero balançar de cabeça que concorda com tal constatação ou podemos nos unir a quem pensa diferente e reconhece existir muitas razões pelas quais lutar.

As causas políticas estão na nossa cara, só não enxerga quem não quer ou quem já teve seus olhos extirpados por um sistema ideológico que identifica violência com a ação de bandidos, únicos perturbadores da ordem. A violência está na ordem, ela é a ordem do dia, esse é o motivo da sua invisibilidade. A violência contra os animais aparece como gastronomia, como rodeio, como circo, como puxada, como farra do boi, mas nunca como violência, afinal sempre comemos assim, sempre nos divertimos assim, não podemos modificar a cultura e, além do mais, animal não sente dor, não sofre por não ter consciência. A violência contra a mulher aparece como tratamento de beleza, cirurgia plástica, como mulher moderna que deve ter tempo - isso se quiser ser uma mulher completa- para trabalhar e cuidar dos filhos, mas nunca como violência. A violência contra os negros aparece na sua ausência em papéis importantes na televisão, na sua ausência das salas de aula, na sua ausência entre grupos sociais privilegiados, mas eles nunca aparecem como violentados, somente como agentes de violência. A violência contra os homossexuais aparece nas brincadeiras, na proibição de exposição pública da afetividade, mas nada disso é visto como violência, trata-se apenas de “brincadeiras” e reclamar delas é dar mostras de não possuir senso de humor, a exigência de que se faça tudo entre quatro paredes, mesmo o mais singelo dos beijos, não é violenta, trata-se apenas de uma questão de respeito, pois não é necessário incomodar as pessoas mais velhas.

Quando compactuamos com todas estas coisas estamos fazendo política, mesmo que não queiramos ou não saibamos, estamos sendo coniventes com uma política das hierarquias, da exclusão, da violência. E o fato é que, de uma forma ou outra, seremos respingados por esse sangue que jorra dos atos dessa política da violência, ora como perpetradores, ora como sofredores. Por isso, é sempre bom lembrar que a política está imiscuída em nossas escolhas, mesmo nos atos mais simples, como o de rir de uma piada, compactua-se com um sistema político. Escolher um candidato é importante, afinal ele será o responsável por decisões que afetarão nossa vida até mesmo em seus detalhes, mas nós estamos sempre fazendo política e isso vai para além dessa simples escolha. Ser cidadão é muito mais do que apertar sim ou corrige, ser cidadão é ter um posicionamento diante do mundo e lutar, de modo coerente e racional, por uma vida melhor e mais digna a todos. Ser cidadão é, para superar a heteronomia dos valores sociais, inclusive, lutar para a criação de espaços em que se discuta o que é uma vida melhor e mais digna. Ser cidadão é ser um sujeito de ação exigente de uma lógica da política regulada por expedientes institucionais comprometidos com valores éticos.